Tirei tudo para fora. Literalmente.

Foi num domingo de sol, mas podia ter sido noutro dia qualquer.
A única coisa que sabia era isto: já não dava mais para fingir que o meu armário era neutro.
Abri as portas, tirei tudo para cima da cama.
Tudo.


Foi num domingo de sol, mas podia ter sido noutro dia qualquer.
A única coisa que sabia era isto: já não dava mais para fingir que o meu armário era neutro.

Abri as portas, tirei tudo para cima da cama.
Tudo.
Meias, casacos, vestidos que “um dia ainda uso”, calças que “talvez voltem a servir”.
Um amontoado de roupa com mais história do que estilo.

E comecei a olhar.
Não com culpa, mas com olhos que já não queriam enganar-se.

Havia peças que nunca vesti.
Etiquetas ainda presas.
Camisolas que comprei para “ocupar o vazio”.
Camisas que me apertam — no corpo e na memória.

Encontrei roupa de outras versões de mim.
Algumas já não fazem sentido. Outras, nunca fizeram.
E por mais que me custasse admitir, havia ali muito peso emocional pendurado em cabides.

Roupa que guardei por pena.
Peças que achava que me definiriam.
Mas a verdade é que só estavam a ocupar espaço — dentro e fora de mim.

Não fiz tudo de uma vez.
Não dobrei tudo num método mágico.
Fui ficando com o que me fazia sentido.
Fui doando. Reutilizando. Perguntando: “Isto serve-me… ou só está aqui porque sim?”

Não foi bonito de ver.
Mas foi libertador.

Às vezes, limpar não é sobre organizar.
É sobre ser honesta contigo.
Com o que és agora. Com o que precisas — e com o que já não te acompanha.

Percebi que guardar por pena também é um peso.

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