
Não foi a peça mais bonita da loja.
Nem a mais barata.
Foi a que me fez parar.
Entrei com calma, sem aquela urgência de “tenho de comprar alguma coisa”.
E talvez por isso tenha conseguido ver com mais clareza.
Vi uma camisola, toquei no tecido, li a etiqueta, perguntei como foi feita.
Não senti pressa. Nem aquela excitação falsa que às vezes se confunde com desejo.
Pensei se precisava mesmo daquilo.
Pensei se combinava com o que já tinha.
Pensei se era só uma ideia momentânea ou se me via a usá-la vezes sem conta.
E decidi comprar.
Mas o mais estranho foi o que veio depois:
não senti culpa.
Nem aquela dúvida desconfortável no caminho para casa.
Nem aquele “isto vai ficar parado no armário”.
Usei a camisola no dia seguinte. E depois de novo.
Senti que aquela compra foi uma continuação de mim, não uma distração.
Não estou a dizer que agora acerto sempre.
Ainda compro coisas de que depois me arrependo.
Mas naquele dia, pela primeira vez, senti que escolher com intenção fazia mais sentido do que simplesmente comprar.
E isso mudou tudo.
Não foi só uma peça nova.
Foi uma nova forma de estar.
