Não foi de um dia para o outro.
Nem foi depois de ver um documentário ou de ler um artigo alarmante.
Foi mais subtil do que isso. Quase invisível.

Foi naquele momento estranho em que tens o armário cheio…
e mesmo assim sentes que não tens nada para vestir.
Foi nesse vazio, cheio de tecidos, que alguma coisa me soou falso.
Comecei a perceber que muitas das roupas que comprava — às vezes com entusiasmo, às vezes só por impulso —
acabavam por ficar ali.
Sem história. Sem uso. Sem ligação.
E quanto mais comprava, mais distante me sentia de mim.
Era como se o meu estilo fosse uma coleção de opiniões alheias.
De tendências, de pressas, de imitações.
Cheguei a um ponto em que vestir de manhã não era escolha. Era esforço.
Não físico — emocional.
Comecei a perceber que a roupa me estava a cansar.
Não me refiro só ao desconforto do poliéster, das costuras mal feitas, da pressa.
Falo de outra coisa.
De um cansaço mais fundo.
O de não me sentir em casa dentro daquilo que visto.
E não — não foi dramático.
Mas foi honesto.
E foi o suficiente para me fazer parar.
Talvez já tenhas sentido o mesmo.
E talvez o próximo passo não seja comprar.
Talvez seja só ficar quieta um pouco.
E observar.
Lê o próximo capítulo →
